domingo, março 09, 2008

A ASAE deveria de fiscalizar chineses


Num jantar que teve a participação de empresários industriais, alguns comerciantes e muitos políticos, o professor Daniel Bessa, a convite da AIRO falou do estado da economia nacional e quais as potencialidades regionais e nacionais no sector do comercio e da industria.
Antes mesmo de falar de soluções, o presidente da Câmara das Caldas, Fernando Costa defendeu que a crise na indústria da cerâmica se deve à falta de fiscalização por parte da ASAE.
“Se a ASAE e o Governo fiscalizassem e exigissem aquilo que exigem às indústrias de cerâmica nacionais não havia crise”, afirmou.
“Quando é que as autoridades nacionais, quando é que a ASAE começa a ver os níveis de chumbo na faiança estrangeira e não são admissíveis nos produtos nacionais. Se há concorrência desleal, quando é que fiscaliza aquilo que entra em Portugal e se exige aquilo que entra em Portugal ao que se produz aqui. De outra forma há concorrência desleal”, argumentou ainda.
O autarca questionou se é a globalização que prejudica o mercado, ou se é que “não há as mesmas regras nas exigências ao industrial português e por isso não tem condições de concorrer”.
“Os chineses e outros países não pagam o tratamento das águas, dos lixos, não tem problemas em contaminar rios, não tem problemas em usar produtos há muito banidos da produção nacional”.
“Se o Estado português não fizer uma fiscalização apertada ao mesmo nível daquilo que faz aos produtores nacionais, creio que a industria e a cerâmica vai continuar a ter problemas”, insistiu.
Sobre este assunto, Daniel Bessa declarou que “Portugal tem a obrigação de não deixar entrar no território a cerâmica que não corresponde aos exigidos à cerâmica nacional. É uma vergonha. Temos um Estado grande e fraco, porque impõem parâmetros ambientais e depois não os põem aos produtos que entram. Deveriam de impor essas regras também às superfícies que vendem essa cerâmica e esses produtos”.
O antigo ministro da economia no semestre de Outubro de 95 a Março de 96, considerou ainda que “há um problema sério de consumo energético, porque a cerâmica é muitíssima dependente da energia e acho que é inaceitável que o sector da cerâmica está a ser penalizado com o preço da energia”.
Outro dos assuntos trazidos à conversa numa pergunta simples e directa foi a do empresário da hotelaria, Azimbhai Momade Ali que quis saber a opinião de Daniel Bessa, sobre onde o Oeste vai por o dinheiro por ter perdido o aeroporto.
O economista declarou taxativamente que: “nunca vi uma questão tão bem resolvida e tão depressa. É como os outros, têm um preço. Foi uma coisa bem resolvida”, criticou ao mesmo tempo que toda a plateia sorria.
Sem ter dados concretos da actividade do Oeste, Daniel Bessa sempre aconselhou a que os responsáveis políticos locais a potenciarem, “sobretudo na sua faixa litoral do Oeste, onde há um enorme potencial de construir um sector de turismo, virado para segunda residência”. Também a construção de unidades de saúde distribuídas pelo território, de serviços, de agropecuária, de cerâmica, de calçado, de metalomecânica e de outras actividades económicas são apostas de Daniel Bessa para o Oeste que deveria ter em conta nas negociações com o Governo, porque “há potencial para muitas coisas neste território”.
Quanto à parte do comércio, e sabendo que existe uma Associação de Comerciantes, perguntamos a Ana Carneiro Pacheco o porquê da utilização desse slogan, sabendo que preside uma Associação de Industriais. A dirigente justificou, no final da reunião, que o aproveitamento do slogan até aqui usado apenas pela ACCCRO, foi “porque achamos que no título ficava mais atraente com Comércio Tradicional por ser quase uma marca. Foi uma maneira de trazer as pessoas”, desdramatizando o factor de retirar associados à ACCCRO, embora na sede da AIRO esteja também um gabinete ao comerciante e não ao empresário.
Ana Carneiro Pacheco confirmou que “há uma sã convivência entre a ACCCRO e a AIRO”, defendendo que o Gabinete do Apoio ao Comerciante na Expoeste, “está ali porque a ACCCRO não quis participar. Não era prático ser na sede da ACCCRO pelo estacionamento e a Câmara como parceira, entendeu que seria na Expoeste e eu acho muito bem”.
A presidente da AIRO, acha mesmo que “seria uma estupidez meter-se em terrenos da ACCCRO”, admitindo que “tudo aquilo que faço é no âmbito da abertura da lealdade”.
Ana Carneiro Pacheco justificou ainda que “estava um lugar na mesa para o Dr. João Frade, (presidente da ACCCRO) e ele confirmou a sua presença, mas parece que teve um problema de saúde e não veio”.
Contactado, João Frade, este confirmou a sua indisposição por motivos de gripe.
Quanto aos assuntos defendidos por Daniel Bessa para o futuro do comércio, o economista defendeu a autenticidade dos cidadãos.
“O Domingo não é o dia para se ir aos supermercados. Era para ir passear e ficar na rua a visitar os amigos e visitar os jardins. Actualmente é um Domingo triste, porque as pessoas metem-se num supermercado. Fazia sentido fechar tudo numa escolha de um modo de vida. Fechar uns e abrir outros é tapar o sol com a peneira porque não tem consistência e não é autêntico”.
“Não somos muito consistentes porque temos lágrimas pelo pequeno comércio mas lá vamos comprar nos hipermercados”, criticou.
O orador afirmou mesmo que falta “exercer a cidadania”, justificando que “faz-nos bem dizer aquilo que pensamos sem termos o propósito de ofender alguém. Devemos fazer escolhas que são necessárias e bem feitas se dissermos aquilo que pensamos”.
Comentando a entrado do euro na economia nacional, Daniel Bessa referiu que “o país deixou ir a inflação aos 30% e deixou a redução dos salários em 17%. Eu admiro o professor Cavaco Silva, mas uma parte do sucesso do seu Governo, combativo economicamente, deve-se ao professor Hernâni Lopes que lhe deixou uma economia muito barata, com custo baixos, exportando mais e com um nível de vida baixo e importando pouco. Isso acabou e durante os anos 90 a economia encareceu muitíssimo”.
Daniel Bessa apontou mesmo que o mesmo euro na Alemanha “o custo está hoje 5% mais barato do que estava à oito anos atrás. Por outro lado a Espanha é dos maiores problemas que Portugal tem, porque está mais cara 50% e quer exportar”.
O orador acha que a economia espanhola “vai sofrer uma paragem violentíssima”, admitindo que “o que correu bem a Portugal foi a economia espanhola ter crescido a 3 e a 4% ao ano e abriu mercado. Acho que nós cometemos o mesmo erro e que temos vindo a corrigir desde 2001. Os erros fundamentais foram cometidos durante os anos 90”, afirmou, destacando que “a partir de 95 foram cometidos erros muito graves e sérios”.
Daniel Bessa deixou ainda como dado que “Portugal come mais 10% do que aquilo que produz e a União Europeia paga 1/3 disso, mas continuamos a ser uma formiga da Europa. Vivemos mal com o euro e encarecemos muito com o euro e temos vindo a pagar esse erro. Não soubemos viver com o euro nos primeiros anos”, admitiu.
Daniel Bessa concluiu dizendo que “o Choque Tecnológico foi uma ideia feliz do engenheiro José Sócrates, mas a ideia de um Choque de Gestão pronunciada pelo Dr. Santana Lopes também foi uma ideia feliz e que o país precisa”.

Carlos Barroso

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