sexta-feira, novembro 02, 2007

“A Estrela de Joana” apresentado nas Caldas


O ex-agente da Polícia Judiciária, Paulo Pereira Cristóvão, que investigou, entre outros o caso da menina Joana, brutalmente assassinada pelos pais, esteve na Livraria 107, no âmbito do lançamento do livro, “A Estrela de Joana”, da sua autoria.
O ex-agente confessou que a ideia de escrever este livro, foi sedimentado por “coisas que ia escrevendo à mão, depois de vir do Algarve, em folhas de papel soltas sem qualquer objecto definido ao final. Em 2006 a coisa começou a assumir alguma forma, mas foi em 2007 que se assumiu como um livro”, informou.
“A Estrela de Joana”, só foi lançado a sete de Setembro deste ano, mas já vai na sua 16º edição, o que para o autor representa “uma homenagem que eu faço à pequena Joana. Fiquei um grande fã dela, porque a Joana em oito anos sofreu mais do que muitos adultos hão-de sofrer. O livro é uma singela homenagem que lhe faço a ela. Uma parte das minhas receitas pessoais, vão para o refúgio Aboim Ascensão, que cuida de crianças que alguém tinha o dever de cuidar delas. É também uma homenagem a muitos polícias que incognitamente desestruturam as suas vidas pessoais em favor de uma sociedade e às vezes de uma polícia, que não lhe prova, que eles o façam”, descreveu.
Paulo Cristóvão mostrou-se satisfeito “apenas com a sentença que foi dada pelo Supremo”, porque “se adequa bastante mais aos factos apurados durante a investigação. Passamos de um homicídio qualificado, para ofensas à integridade física agravadas pelo resultado de 16 anos de pena única. Aquilo traduz, a alguém que bateu, mas que não tinha intenção de matar, mas efectivamente ocorreu a morte e acomodou-se”, assinala.
Para o autor “não é difícil lidar com esta situação enquanto agente, porque quando se está a trabalhar o polícia está focalizado para o objectivo. Mas quando se volta à superfície, pensamos nas coisas. A uns, dá-lhe para beber uns copos, outros vêem o rio e a mim deu-me para escrever o livro”, desabafa.
O facto do corpo de Joana nunca ter sido encontrado, para Paulo Cristóvão, é importante, “especialmente quando se fala de um homicídio”. Porém recusa-se a acreditar que “alguém que cometa um crime de homicídio e se desfaça de um corpo de uma forma mais ou menos espevita do corpo, já mais pudesse a vir ser condenada por um crime de homicídio. Mal estaríamos nós se assim fosse. O mais importante foi determinar em concreto, se efectivamente tinha acontecido um homicídio e partir do momento que tal estava sedimentado, vamos então ver quem o cometer e em que circunstancias e porquê. Isso foi conseguido neste processo”, declarou.
Sobre os comentários de “agentes” externos às investigações fazem comentários, o autor responde que só ele, Moita Flores e José Barra da Costa “tem mérito porque seja o que for que digam, falam por experiência própria”, expôs.
“Eu não opino sobre a vida de jornalistas porque não percebo nada de jornalismo e por respeito não me coloco a opinar. Agradeço que o mesmo não fosse feito, mas não é isso que acontece. Temos gente a falar de tudo. Qualquer coisa que venha destas três pessoas, dizem com conhecimento e sabem o que é investigação criminal”, realça.
Tomando o rumo ao caso de Madeleine McCann’s que Paulo Cristóvão não se escusou em comentar, o ex-agente refere que “foram feitos ataques infames à Polícia Judiciaria portuguesa e tristemente só houve duas pessoas na comunicação social a defender o trabalho da polícia, dois ex-agentes, Moita Flores e Paulo Pereira Cristóvão, porque da parte daquela casa e da tutela, nunca houve qualquer defensa daqueles homens e por isso aconteceram coisas que aconteceram”, desabafa.
“O nosso serviço e o nosso respeito às pessoas pelo trabalho que ali desempenham. Deveria de ser a tutela a defender os agentes e não os jornalistas e nós, antigos colegas”, acrescenta.
Sobre o aparato televisivo no caso de Madeleine McCann’s, o autor do Livro sobre Joana, afirma que “a PJ não está preparada para ter esta pressão de média. Mas conhecendo as pessoas que estão a investigar o caso, não é muito relevante para elas, no terreno, que não se tratam de pessoas impressionáveis. Há noticias que prestam mau serviço à investigação. Principalmente quando a policia quer falar com um indivíduo e isso aparece num jornal dois dias antes. É a própria polícia que tem de criar mecanismos para ficar totalmente estanque”, frisa.
Daquilo que foi a sua experiência enquanto agente e daquilo que se passou no Algarve com o caso da Joana, Paulo Cristóvão aponta “os dias em que estávamos a jantar e a comunicação social dizia que tínhamos feito várias coisas e na realidade não tínhamos feito nada. Isso é bom sinal porque não sabiam o que estávamos a fazer”, verbalizou.
Também no livro relata o episódio em que “íamos fazer uma diligência nos poços e para fazer uma diversão tivemos um dia inteiro a olhar para um arbusto que estava a ser desbastado. Isso teve o mérito de termos a comunicação social à volta de um arbusto o dia todo, enquanto as pessoas trabalhavam descansadamente”, elucida.
Com esta situação, o ex-policia lembra que “há o dever à investigação e o direito à informação, mas quando os dois colidem, temos pena, mas o da investigação tem de prevalecer, porque a informação pode ser dada em qualquer altura”, explica.
Perante tal condição, discordou da presença do chefe Olegário no caso da menina inglesa, porque “abriu-se um precedente. Bem ou mal nós temos a nossa forma de investigar. Mal ou bem é a forma que nos governa e não temos de alterar os nossos procedimentos só porque vêem umas pessoas que fazem notícias e têm muitos jornais para vender. Acho que não se deveria ter aberto qualquer tipo de excepção, mas sim dizer que em Portugal investiga-se assim e trabalha-se no segredo. Quando chegarmos ao fim fazemos uma conferência de imprensa e mostramos os resultados”, descreve.
“Era assim que se deveria de fazer, porque criou-se uma situação que não estava orquestrada, criou-se um briefing onde não se poderia dizer nada. Foi um papel ingrato dado ao agente Olegário que fazia conferência de imprensa atrás de conferência de imprensa para dizer que sobre isso não se pode falar. Mais valia não fazer qualquer conferência de imprensa. Foi uma modernize que se introduziu sem bases. Se a Lei não permite que digamos nada, porque vamos fazer uma conferência de imprensa para não dizermos nada. Não se faz. Não se ganhou nada. E se for criado um gabinete de informação, não muda nada, porque a Lei é a mesma”, sublinha.
Quanto ao facto dos colegas que colaboraram na investigação e verem os factos tornados públicos, assim como os seus nomes, Paulo Cristóvão refere que “o grupo era constituído por cerca de vinte agentes, mas por questões de narrativa apenas aparecem três para tornarem as coisas viáveis”. Porém acrescenta que “a história era de toda a gente e mereceriam pelo respeito, que tivessem os seus nomes no livro”, narra.
Por diversas vezes o ex-agente da PJ, recebeu cumprimentos de populares que o incentivaram e o encorajaram, pela obra escrita. O autor confessou inclusive que muitas pessoas compraram pela primeira vez um livro, que foi “a Estrela de Joana”, algo que significativamente o emociona muito.
Sobre o facto da “Estrela de Joana” ir na sua 16ª edição, o autor afirma que “tinha razão quando o escrevi, porque efectivamente isto traduz que a sociedade ansiava pela comunicação da polícia com ela própria”, distingue.
“O facto do livro ter o êxito que está a ter, traduz na necessidade das pessoas terem contacto com o trabalho da polícia. De saberem o que os polícias fazem e o que está por de trás daquilo que vemos na televisão”, conta.
Das sessões de autógrafos, salienta que o livro “tem um grande mérito porque há muita gente que assumiu que foi o primeiro livro que comprou na vida e porque me toca as pessoas que vem com as moedinhas contadas para comprarem o livro”, focou.
Segundo a proprietária da Livraria 107, Isabel Castanheira, “há imensas pessoas que não entravam ou que nunca tinham entrado em livrarias, mas agora vêem à procura desta obra”, complementa.
Por último, Paulo Cristóvão vai continuar a escrever, até porque já foi convidado e porque “assunto não falta. Vou escrever sobre os assuntos que domino e sobre dois casos que vivi”, conclui.

Carlos Barroso


“A Estrela de Joana”
Autor: Paulo Pereira Cristóvão
Nacionalidade: Portugal
Curriculum: Paulo Pereira Cristóvão nasceu em Lisboa em Julho de 1969. Em Novembro de 1990 entrou para os quadros da Polícia Judiciária de onde saiu no início de 2007 para fundar uma empresa de Consultoria e Investigação.
Durante o tempo em que foi Inspector da PJ, foram-lhe atribuídos alguns dos processos mais mediáticos da Direcção Central de Combate ao Banditismo, sendo “Joana” mais um dos processos em que manteve um papel relevante. Destacou-se em várias investigações cujo objecto ia desde o Tráfico de Seres Humanos, passando por processos de Terrorismo até às Máfias de Leste.
Em finais de 2004 entrou para o combate à Corrupção onde se manteve até sair da Polícia Judiciária.
Possuidor de formação específica ao nível da Perícia Psicológica, Perfis e Tendências Criminais, justiça criminal entre outras, administradas por entidades nacionais e estrangeiras, sempre foi um estudioso da “coisa policial”.

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